Avé Maria

Avé Maria


O panorama é surpreendente: uma sucessão de cabeços e de pequenos vales, do lado português, e as serras de Espanha a fecharem o horizonte, do outro lado. Vegetação abundante e variada, com predomínio dos olivedos e dos montados. E silhuetas de guindastes, tendo em seu redor os restos do mármore arrancado à terra. É assim o breve caminho do Alandroal a Vila Viçosa, e daqui até Borba, onde passa a auto-estrada. Lisboa está agora muito próxima, a escassa hora e meia de distância.

Uma viagem muito apetecível. Há tanto para ver nestas paragens alentejanas. Para além do cenário natural e do património arquitectónico, ambos belíssimos, encontra-se um povo acolhedor, de ricas tradições, entre as quais avulta a gastronomia. E um dos seus lugares de eleição está no Alandroal, num restaurante que se chama simplesmente A Maria.

Fica num antigo celeiro, contíguo à muralha. Tem uma sala ampla, com mesas redondas, onde podem ser servidos cerca de 70 comensais. À esquerda encontra-se um balcão, só para serviço. A parede do outro lado imita as fachadas das casas do Alentejo, incluindo o típico estendal. Ao fundo vê-se uma escadaria, que não é mais do que outro motivo de decoração. Tudo funcional, simples, asseado, agradável à vista. E, mais ainda, ao paladar, como se comprovará.

Em boa vontade, o sinal de distinção desta casa está na cozinha e na arte de Maria da piedade Almeida Monteiro, que lhe deu o nome. Do cardápio, as menções são as usuais por esse Alentejo fora, mais uma ou outra novidade: cozido de grão; migas com entrecosto; sopa da panela; mão de vaca com grão; borrego assado; cabrito à chanfana; pato em molho de vinho tinto; lombo assado; fricassé de galinha; lebre com nabos; e, entre os pratos de peixe, além da inevitável sopa de cação, o destaque vai para um bacalhau dourado, que se tornou referência – e chamariz – para os vizinhos do lado de lá da fronteira.

Os Sabores exaltam os Sentidos
A Maria não se distingue pela novidade, mas pela qualidade, quer da matéria prima, quer pela confeção. Tome-se, por exemplo, o cozido de grão. Numa travessa exibem-se as carnes: enchidos (chouriço e farinheira, feitos na casa), porco (chispe, entremeada e lombo de porco preto) e borrego, cozidas apenas com água e sal; ao lado estão os legumes: grão, feijão verde, abóbora, batata, cenoura e hortelã; à parte, numa terrina, rescende o caldo; o pão agurada num cesto e também ele desperta o apetite, ou não fosse legítimo pão alentejano, trazido do monte.

Há um preceito para servir o cozido: sobre o pão dispõem-se as carnes e os legumes, depois rega-se tudo com o caldo. Os aromas desprendem-se, os sabores exaltam os sentidos. Este cozido é diferente, pela superior qualidade dos produtos e pelo exímio labor culinário.
A quem este exemplo não interessar, deixam-se mais duas sugestões: a sopa da panela, que leva galinha do campo, chouriço, entremeada e borrego, tudo cozido, acompanhado com o pão e o caldo, e o pato em molho de vinho tinto, que é cozido no bico do fogão e fica suculento, com aroma penetrante.

Os doces são o último desafio:  fidalgo; filhós; mel e noz; morgado; sericaia; pastéis de amêndoa (os “pastéis da mamã” mostram-se tentadores). Para decidir as mais que prováveis hesitações o melhor é optar por um pratinho com amostras de duas ou tr<~es destas especialidades.

Também convincente é a garrafeira, onde não faltam os bons vinhos da região.

A Maria é um restaurante popular. Aos fins-de-semana regista enchentes, em ambiente informal, com grupos familiares e de amigos que se tornam, por vezes, ruidosos. Suportável, todavia, esse ambiente, graças à boa dimensão da sala.

O serviço, orientado por Cândido Mateus, é personalizado e eficiente.

Tem A Maria tudo o que é indispensável num bom restaurante: despensa fornecida com boa matéria-prima, cozinha muito bem orientada, sem primores de escola, mas com saber de experiência feito (é herança da mãe, a mestria exibida por Maria), serviço atento, ambiente acolhedor. Não pretende ser mais do que é: mesa simples, saborosa e farta, posta com simpatia.

Por isso, justifica o cumprimento sincero: Avé, Maria. Que o teu exemplo frutifique.

Rubrica ‘Sabores’, por Manuel Gonçalves da Silva