Manjares do Além

Manjares do Além

No Alandroal, junto a Vila Viçosa um antigo celeiro convertido em restaurante de referência. N’A Maria, a sensação é a de estar a comer num pátio alentejano, com vista para as fachadas das casas e até para o estendal de roupa da vizinha.

É um verdadeiro templo de sabores este que se ergue no Alandroal. No restaurante A Maria, a autenticidade alentejana é mesmo o prato do dia.

A cozinha é quase o habitat natural de Maria Piedade Monteiro, a Maria que dá nome e alma a este restaurante. Ainda estamos a subir os degraus da entrada e a reparar nos pormenores das surpreendentes e típicas fachadas alentejanas que decoram o interior, e já ela nos cumprimenta do lado de lá do balcão. Atenta a todos os detalhes. O mesmo se poderá dizer de Cândido Monteiro, os dois partilham a vida e a gestão deste restaurante, o que será talvez uma e a mesma coisa, tal é o tempo que investem no projeto que absorve quase as 24 horsas do dia. Como eles no haviam de confessar: de outra forma não poderia ser. Mas vamos por partes.
Com sotaque alentejano, Maria conta que aprendeu com o pai (cozinheiro na India), trabalhou desde nova no restaurante da mãe, mas sempre sonhou ter um que fosse seu-onde pusesse em práticas ideias de culinária de livros ou revistas e fruto da sua imaginação.
Um dia o sonho concretizou-se. Recebeu um antigo celeiro em partilhas e percebeu que ali estava a oportunidade da sua vida. “Queria chamar as pessoas ao Alandroal”, recorda para justificar que o seu restaurante tinha de ser mesmo bom. Dez anos depois da inauguração, pode recostar-se na cadeira e gozar a sensação de missão cumprida. As pessoas chegam de todos os pontos do país e, como lembra o senhor Cândido, “nunca se vão embora sem se despedirem de nós. Se a comida é, de facto, o centro das atenções, os clientes são o alvo dos cuidados dos proprietários.
Com a mesma simplicidade que caracteriza o menu e o espaço, Maria vai apresentado as suas criações inspirados nos típicos alimentos alentejanos. “Temos de apostar no tradicional. Até podemos experimentar receitas novas mas nunca vamos colocar na lista pratos que não sejam alentejanos”, garantem. O Cozido de Grão à Alentejana, por ser um prato pesado para os dias de mais calor, já foi por diversas vezes substituído na ementa, mas sempre sem sucesso: “As pessoas vêm de propósito para o comer.”
Talvez por isso, o menu não sofre grandes variações, apenas pequenos ajustamentos, consoante a época. A qualidade dos ingredientes é assegurada por Cândido: “O chispe aqui é muito mais suculento que o habitual”, afiança o proprietário, que também selecionou a garrafeira. Maioritariamente alentejana, está claro!

Simplicidade e bom senso

Maria dispensa as teorias culinárias. Prefere falar de experiências e dos pequenos truques que fazem a diferença. “As batatas, por exemplo, são sempre fritas em azeite e nunca uso banha de porco para cozinhar porque as comidas ficam muito pesadas.” Cada prato esconde um saber e exige um período de estudo e maturação: “Fizemos a perdiz seis vezes antes de a colocar à venda”, lembra Cândido. A receita de pato em molho de vinho do porto, por outro lado, pedia perdiz, mas como não havia na época, arriscou-se com pato. Hoje é um dos pratos mais apreciados. E nem as sobremesas, tipicamente conventuais, escaparam. Por ser diabética, Maria lembrou-se de cortar o açúcar nas doses recomendadas, “experimentei a ver o que as pessoas diziam”, justifica. E elas gostaram.
Prova disso é que voltam sempre para comer um bocadinho mais.

por: Ana Paula Carvalho e Tiago carvalho