Um paladar de excepção

Um paladar de excepção

Viaja-se até ao Alandroal para ir ao Restaurante A Maria, onde há comida de sabores bem alentejanos, feita por mãos de artista.

Há vários motivos para visitar o Alandroal, como o castelo e o vasto panorama que dali se desfruta, mas o que atrai os viajantes, desde o princípio da década de 90, é o Restaurante A Maria, onde pontifica a cozinheira Maria da Piedade Almeida Monteiro.
Situado num antigo celeiro, junto da muralha, o restaurante tem uma sala ampla, funcional e agradável. Pelo atendimento personalizado percebe-se que não há só vontade de bem servir, também existe brio profissional e conhecimento do ofício. Este mérito pertence ao marido da cozinheira, Cândido Mateus. Maso que distingue o restaurante é a cozinha, que se impõe pela qualidade dos produtos regionais e pela superior culinária, que respeita os cânones sem, todavia, deixar de acentuar o toque pessoal de quem a executa. O génio da cozinheira revela-se em coisas tão simples como o cozido de grão, cujos ingredientes principais vêm à mesa separadamente – carnes, legumes, caldo e pão alentejano – num desafio aos comensais para os apreciarem, combinarem e desfrutarem.
Maria da Piedade cresceu em Moçambique, onde vivia com os pais. Veio com eles para o Alandroal, em 1976. O pai faleceu, em 1981, e foi a jovem que ficou à frente do café que a família explorava. Tinha apenas 16 anos. Onze anos mais tarde, em 1992, abriu um restaurante nas instalações de um antigo celeiro que lhe coube em herança. Aprendera a cozinhar com o pai, cozinheiro de profissão, e herdara o paladar da mãe, que “era muito apurado”. Casara entretanto com o técnico de vendas Cândido Mateus, que apostou tudo na arte culinária da mulher e deixou a sua profissão para se encarregar da sala.
A Maria cresceu rapidamente, e o segredo, segundo Maria da Piedade, está no cuidado que põe em tudo o que faz: “Sempre gostei de cozinha e tive a sorte de herdar o paladar da minha mãe. Depois, aprofundei os conhecimentos da cozinha alentejana, li tudo o que encontrei, estudei, fiz muitas experiências e, quando abri o restaurante, atentei na reacção dos clientes. Mas o paladar é meu: da sopa de cação ao borrego assado, às migas, tudo o que faço é diferente, por ser de acordo com o meu paladar. Outra coisa que conta muito: os produtos. Só uso produtos naturais, nada de congelados. Também não gosto de trabalhar com banhas, nem pimentas, porque não tenho nada a esconder.”
No dia desta conversa, havia na ementa burras, perdiz e secretos estufados (nada enjoativos, uma delícia!) que se venderam num ápice. Alguns clientes vieram de longe. Maria da piedade comenta: “Ninguém vinha aqui de propósito se a comida não fosse diferente e feita com produtos muito bons. Tenho uma paladar muito apurado, graças a Deus. Isto é uma coisa que nasce com a pessoa, senão qualquer um pegava numa receita e fazia. Mas não. É preciso ter paladar, bons produtos e muito gosto no que se faz.”

É um gosto, A Maria.

 

Visão Gourmet, por Manuel Gonçalves da Silva