Um passeio alentejano

Um passeio alentejano

Houve tempos em que o Alandroal ficava em caminho. Antes da autoestrada para Badajoz estar concluída, valia a pena ligar Évora a Elvas por aquele interior alentejano, passando pelo Redondo e Alandroal. Foi nessa época que o Restaurante A Maria, no Alandroal (na parte velha da vila, perto da muralha do castelo), se tornou conhecido. Existe desde 1992. Hoje, já fora dos itinerários normais, exige um passeio alentejano, relativamente alargado. São cerca de 200 quilómetros de Lisboa lá – passando por Évora e Redondo. E a maioria dos clientes, segundo os donos da casa, vai de facto de Lisboa, com mesa marcada (precaução indispensável, sobretudo aos fins-de-semana).
Aproveitou-se de um velho celeiro, de pé muito alto, transformando-o num pátio alentejano, com as casas a saírem das paredes, em relevo. As cores são as da terra. O chão é de laje do Guadiana, com cera acrílica muito brilhante e muito escura. Tem graça.
Entremos então pela cozinha. A Maria tem um capricho pouco alentejano: não usa banha nem pimentas. Compensa com o azeite. Podem-se comer umas batatas fritas à antiga portuguesa, a que eles chamam estaladiças, porque são realmente feitas em azeite. E que, com o arroz afogado nos molhos respectivos de cada prato, é acompanhamento quase geral.
Um dos pratos mais tipicamente alentejanos da casa é o cozido com grão e feijão verde, carne de porco preto e enchidos da região. E há depois o borrego estufado, as migas de carne de porco preto, os pezinhos de coentrada, o chispe assado no forno, caldeirada de cabrito – e, na caça, a lebre com feijão e nabos, o coelhinho de coentrada e a perdiz à moda da casa (estufada com muita cebola e vinho tinto, receita que é aproveitada também para o pato, e que me agradou). Nos peixes, temos a sopa de cação e um bacalhau dourado muito húmido.
Mas pus a carroça à frente dos bois. No Alentejo, é indispensável começar pelas empadas de galinha. Belíssimas. Desta vez, havia também uns cogumelos frescos, locais, salteados, deliciosos. Há outras opções tentadoras: saladinha de coelho, pimentos vermelhos adocicados, queijo de ovelha gratinado com doce de tomate, etc.
E depois uma amostra larga da doçaria alentejana: desde os pastéis de amêndoa e gila a uma “enchovalhada” do Alandroal, que a casa recomenda vivamente, e que eu não provei. Optei desta vez por partilhar uns morangos e umas farófias. Uma lisboeta que almoçava a meu lado, sem noção do que são ovos do campo, achou a encharcada demasiado amarela, e protestou…
Sem faltarem marcas de outras regiões, a lista de vinhos é essencialmente alentejana. E com preços cordatos, que permitem valorizar a óptima cozinha da Maria, com um bom tinto aconselhado pelo Cândido. Eu, que estava nesse dia para pouca bebida, fiquei-me austeramente por uma garrafa de meio litro (isso mesmo: meio litro) de Ravasqueira.
Sim, a Maria vale bem um passeio alentejano de 200 km.

 

Saber comer, por Pedro d’Anunciação